13/02/2013

Histórias Sobre Fotografias: Sei Que Me Olhas Através da Vidraça



Extasiado, deixou escapar um gemido por entre a penumbra da noite. Já perdera a conta ao tempo que passara naquele mesmo lugar, noite após noite, encostado ao muro do jardim, encoberto pela folhagem do velho plátano, habituado a guardar histórias de luxúria e de prazer. Como um pecador que a qualquer hora podia ser apanhado em flagrante delito, observava-a. E ela exibia-se para ele. Num cenário previamente preparado, todo ele a apelar ao despertar dos sentidos, oferecia-lhe o seu corpo de mulher. Fémea sensual, em todo o seu esplendor, desnuda de qualquer pudor.

Insinuava-se por detrás do cortinado entreaberto, levando-o devagar pelos meandros do delírio que devassamente percorria. Trilho dos infernos, ou plenitude dos céus, num vai vem de loucura, instigada e consentida. Era apenas a linguagem dos corpos a falar do êxtase dos sentidos, sem regras, sem cobranças, sem convenções. Nunca tinha havido uma só palavra naquele acordo tácito que o trazia, todas as noites para aquele lugar. E a fazia, a ela, perfumar-se para o esperar. Horas de paixão, livre, irreverente, luxuriosa, de aventura e segredo guardado no mais ínfimo recanto da alma de cada um.

As mãos dela acariciavam, poro por poro, toda a extensão da sua pele, como se fosse ele a sorver todo aquele mel. E ele, ele reinventava, uma e outra vez, o caminho para o vulcão a jorrar cascatas incandescentes de lava a fervilhar. De um e do outro lado da vidraça, a comunhão, a integridade dos corpos depois do prazer. E o cigarro, saboreado cumplicemente antes da despedida...
 
 

4 comentários:

JoséManuelBarbosa disse...

Devo confessar que fiquei muito surpreendido, e agradado, com esta surpresa da Luisa!

Nada foi, previamente, combinado, achando eu a ideia interessantíssima. Esta, a de tomar uma fotografia (minha) entre as mãos e, olhando-a, descobrir e contar uma pequena história à volta dela!

Temos feito, inúmeras vezes, precisamente o contrário: ilustrar textos com as minhas fotografias. Sinto-me honrado e muito feliz por alguém dar atenção a uma imagem minha e, através dela, elaborar uma prosa ou uma poesia!

Muito grato e sensibilizado, te abraço, desta maneira possível, até que um dia destes (e já não falta muito!) te possa, então, esmagar os ossos :)

Beijooo!!!

Cristina Almeida disse...

Eu simplesmente não pude deixar de ler o texto, a fotografia me chamou a atenção e então comecei ler e gostei do que li.
As suas fotos José Manuel são sempre muito bonitas e cheias de poesias!
Adoro e admiro o teu trabalho fotográfico!
A Autora da poesia, fica registrada a minha admiração por tecer tão lindamente um estado de êxtase tão apurado e instigante.
Beijos e abraços aos 2!
Cris

Luisa Vaz Tavares disse...

Nada foi, previamente, combinado nem premeditado. Apenas, um olhar sobre este teu fantástico álbum de fotos e as palavras escorreram-me dos dedos como rio que, docemente, fluía da minha alma. Porque gostaste e porque muito mais fotografias tuas me suscitam a mesma comtemplação, outras histórias virão.

Beijo, Zé!

Luisa Vaz Tavares disse...

Obrigada, Cris!

Uma das facetas que a arte pode tomar. Comunhão de sensibilidades que resulta numa simbiose perfeita entre a fotografia e a escrita. Ou mesmo cumplicidade, podemos dizê-lo.

Beijo e abraço, Cristina.